Na noite de treze de junho, elas deixavam uma bacia cheia d´água ao relento, pois acreditavam que poderiam ver o rosto do futuro marido no reflexo.
E se não tivesse nada lá? Era um tal de amarrar o santinho de cabeça pra baixo ou colocar o pobre no poço, até aparecer um pretendente.
E as orações então? Tinha uma que era:
“Meu Santo Antônio querido
Eu vos peço por quem sois
Dai-me o primeiro marido Que o outro arranjo depois.”
Tinha outra para os casos mais graves:
“Meu Santo Antônio querido
Meu santo de carne e osso
Se tu não me dá marido
Não tiro você do poço!”
Maria Helena, a Leninha bordadeira, sempre fazia uma simpatia para casar.
Teve um ano em que a Leninha colocou um pouco de cinzas nas mãos. Rezou pro Santo Antônio e abriu as mãos para ver a inicial do nome do seu amado. Que letra era aquela? T? Ou seria M?
Passou um ano, mais um dia de Santo Antônio chegou e a moça fez várias simpatias, só para garantir.
“Desta vez tem que dar certo.”
Leninha fez a da bacia, a da maçã amarrada com dois coraçõezinhos, a da clara de ovo num copo com água, a do punhal na bananeira e a da fitinha.
Antes de dormir, ainda colocou três feijões embaixo do travesseiro: um feijão com casca, um com alguma casca e outro sem casca nenhuma. Essa simpatia era para saber se o seu marido ia ser rico, remediado ou pobre.
Quando amanheceu, quanta esperança!
Leninha foi logo conferir e lá veio o feijão pelado.
- Ora Santo Antônio, um pobretão pra mim? Vá lá, contanto que venha!
A moça olhou o copo com a clara de ovo e coçou a cabeça.
- Hum... letra B? Ou será D? H?
Depois foi ver a bacia. Fechou os olhos, respirou fundo e olhou.
Não apareceu nada.
Respirou fundo mais uma vez e nadica de rosto do futuro marido.
“Água? De certo meu esposo vai ser marinheiro!”
Leninha tirou o punhal da bananeira e olhou a letra.
“Seria um R? Também pode ser um U...”
A moça estava desacorçoada.
- Ai Santo Antônio, chega! Eu já tenho vinte anos e nada de marido. Já me enamorei do Zé carteiro, do Dito leiteiro, do Denão que toca na banda, o Maneco da venda e qual? Cadê o homem? Eu bordei tanto enxoval que meus dedos têm até calo!
Antes de sair pra missa, arrematou:
- Perdi a paciência com o senhor, santinho! Vou tomar esse Menino Jesus dos seus braços e só devolvo quando me aparecer
um príncipe!
O tempo passou e eis que surgiu por aqui um violeiro. Seu nome era Leôncio, um tocador de primeira, desses que têm até guizo de cascavel na viola.
Leninha e o violeiro se viram pela primeira vez na festa da padroeira. Daí em diante, foi um tal de Leninha suspirar daqui e o Leôncio suspirar de lá.
Até que um dia, o violeiro colheu uma rosa vermelha e foi tocar embaixo da janela da moça.
Marcaram o casamento.
Leninha, já de bem com Santo Antônio, escolheu se casar bem no dia dele, treze de junho. Andava que era só elogios pro santinho e sorrisos pro violeiro.
Na véspera do grande dia, a noiva foi dar a última conferida no vestido branquinho, antes de dormir. De repente, começou a escutar um zunzunzum vindo da rua.
Os barulhos foram aumentando e virou um chororô alto, sem fim.
Foi um deus-nos-acuda: o Zé, o Dito, o Denão e o Maneco chorando que nem bezerros desmamados embaixo da janela da Leninha.
Até o pai da noiva teve que intervir, pegou a espingarda e botou todo mundo pra correr.
A Leninha, com os olhos cheios d’água, pediu mil perdões pro Santo Antônio e quase não dormiu.
No dia seguinte, foi casar de olhinhos inchados mesmo.
O pai da moça, pelo sim pelo não, rumou pro casamento com a garrucha na cintura, pra evitar qualquer bagunça no enlace.
O casamento aconteceu e o casal viveu feliz para sempre.
A Leninha virou a devota mais fervorosa do Santo Antônio e nunca mais judiou dele.
Todo ano, no dia treze de junho, Leninha e Leôncio faziam uma festa pro santinho, com fogueira e muita comida.
O Leôncio tocava viola e contava suas histórias do tempo de tropeiro.
A Leninha ensinava as simpatias pras moças e virou a madrinha de casamento mais concorrida de Jacareí.

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